BABEL À ESQUERDA

DA POLITICA À LITERATURA, CIÊNCIAS, ACONTECIMENTOS E ADENDOS.

“Os homens que amavam a revolução”

Padura / Trotski

A Editora Boitempo, associada à Folha de São Paulo, que todos reconhecem como democrata, por vezes mesmo esquerdista, reuniu um painel de intelectuais sob o título “Os homens que amavam a revolução”, no SESC Consolação. Não se sabe bem se este prestigioso título se refere aos membros da mesa ou aos personagens da historia objeto do livro em discussão: “O homem que amava os cachorros”, do escritor cubano Leonardo Padura. Os membros da mesa foram, na ordem que impõe a galanteria do jornal que a emprega, a Sra. Sylvia Colombo, que foi editora dos Cadernos Especiais, Folhateen e Ilustrada e correspondente da “Folha” em Londres e Buenos Aires; Ricardo Lísias, eleito para integrar a edição da revista Granta com os “Melhores jovens escritores brasileiros” (publicou um livro intitulado “Divórcio”); em terceiro lugar, Gilberto Maringoni, historiador, professor de Relações Internacionais da UFABC, membro do Conselho de colaboradores da “Margem Esquerda” e autor entre outros do livro “A Venezuela que se inventa”. Estava presente o autor do livro, que em 600 fascinantes páginas, retrata a vida de Trotsky, notadamente seu exílio mexicano e a conspiração stalinista que visava elimina-lo – e conseguiu em sua segunda tentativa. O livro é um primor, a escrita é excelente, se desenrola em três planos interligados no tempo e no espaço: o da vítima, Trotsky, o de seu algoz, Ramón Mercader e o do narrador, o veterinário cubano Ivan Cárdenas. Análises mais longas podem ser encontradas nos links abaixo:

http://blogconvergencia.org/blogconvergencia/?cat=105

http://blogconvergencia.org/blogconvergencia/?cat=100

http://blogconvergencia.org/blogconvergencia/?p=1897

Esta não é a primeira reunião patrocinada pela Boitempo dedicada a Padura. A primeira a que assisti – em ausência do autor – reuniu Valério Arcary e Oswaldo Coggiola, historiadores competentes, trotskistas e bons conhecedores do assunto em pauta: porque e como era importante para Stalin e os burocratas que ele representava (e finalmente, comandava diretamente e os assassinou em massa) eliminar Trotsky. Faziam parte da mesa naquele ocasião Frei Beto, que alia à sua natural simpatia uma falta de familiaridade com o assunto, bem retratada pela orelha do volume da edição brasileira. Esta carência explica a benevolência com que trata Mercader (“… homem que nunca falou e que, como militante comunista, recebeu a tarefa de eliminar Trotsky”) e a espantosa frase: “… a morte de Trotsky, decidida por Stalin, contribuiu para a queda do muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética” ! Encarregado de coordenar as intervenções, Breno Altman conduziu o debate a um nível de absurdidade que deve ter espantado os organizadores, e assim não mais foi solicitado: afirmou que se sentiria honrado se o Partido, na época, lhe tivesse dado a tarefa de assassinar Trotsky! Como que o stalinismo é hereditário…

Nesta reunião em presença do autor, os organizadores foram mais prudentes: nada de aventuras ideológicas, reinou entre os “críticos” o conformismo desejado. Padura destacou-se entretanto por intervenções francas e joviais, mesmo se frisando julgamentos reacionários – o que é evidentemente seu direito, e não retira as qualidades do livro, mas (mal) antecipa as crônicas que, pelo que consta, deverá fornecer regularmente à Folha de São Paulo. Esta ambiguidade incomoda: Cuba havia sido satelizada pela URSS e transformou-se em uma sociedade burocrática, que representou entretanto, para os trabalhadores da América Latina e como a URSS em outro momento, a esperança de um mundo mais justo. A derrota que constituiu o retorno ao capitalismo e que parece constituir para Padura uma saída para o descalabro cubano, é evidentemente ilusória e constitue a pior herança do stalinismo: ter descredibilizado o socialismo como ruptura da miséria e das crises assassinas repetidas do capitalismo. A persistência do stalinismo, mesmo sem a máscara de seu fundador, continua a poluir a perspectiva revolucionária tão madura…

O paradoxo deste escritor de livros progressistas e de alto nível – destaca-se, além de “O homem que amava os cachorros”, o extraordinário “La novela de mi vida”, ainda não traduzido – é sua elegância quando escreve, sua acuidade psicológica e política, que contrasta tão fortemente com suas opiniões políticas que parecem bem menos refletidas e que poderiam conduzir a uma adesão aos valores do capitalismo. Isto não é inédito: basta lembrar do julgamento de Lenin sobre Balzac, que escreveu sob forma de genial literatura no século XIX verdadeiros tratados sobre o capitalismo então vencedor e era monarquista; ou então o contraste entre os excelentes livros de Vargas Llhosa e suas opiniões neo-liberais e pro-imperialistas. Padura citou como forte expressão da nova literatura brasileira a obra de Rubem Fonseca: quem adivinharia que o autor de “Agosto” foi golpista de carteirinha em 1964? Contraditório mas verdadeiro: o escritor parece exprimir através de seu talento uma força social quase desprendida de sua posição social pessoal e não por acaso (como no caso de Gorki) são estes os que se adaptam facilmente às mudanças de regime, se acomodando ao “socialismo real” como se sempre tivessem sido seus fervorosos adeptos!

Compreende-se que este tipo de reunião tem objetivos promocionais, e não estritamente acadêmicos. A Editora Boitempo precisa assegurar seus fins de mes, graças à sua capacidade de identificar talentos e de investir e de editar os clássicos do marxismo – embora o mérito essencial seja dos autores em questão… Acredito entretanto que uma maior abertura intelectual e política, inclusive na composição de suas meses, é a verdadeira garantia de perenidade e de originalidade.

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