BABEL À ESQUERDA

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Sobre artigo na Folha de São Paulo (27/07/2014). Típico “swing”: um dia dá uma dentro, no outro dia dá um fora…

Prezado Senhor Clóvis Rossi,

Seu artigo  “Muito ódio, pouca terra”, da Folha de São Paulo de 27/07, contem um cacoete verbal perigoso, pois ao falar do “ódio recíproco entre judeus e palestinos” estimula o racismo. Essa expressão é falsa e terrivelmente “infecciosa”.

Os judeus de hoje descendem longinquamente da população da Judéia e arredores que, após perderem as guerras contra os romanos, se dispersaram (vide entre outros, os livros de Schlomo Sand). Trata-se de um “povo” sui generis e diversificado. A população judaica do pedaço de terra conquistada é constituída de israelenses, enquanto os chamados judeus, espalhados pelo mundo, são argentinos, brasileiros, europeus, norte-americanos etc.. A distinção entre israelenses e judeus equivale àquela entre a população anglo-saxã dos Estados Unidos, protestante ou aparentada, e os imigrantes do Mayflower.

Após a 2a guerra mundial, os governos europeus e americano, testemunhas do massacre que haviam tolerado e mesmo favorecido, decidiram criar um enclave no Oriente médio, constituído pelos remanescentes da população judaica deslocada. Já os palestinos descendem da população local, expulsa de suas terras por esta chegada de imigrantes que estão longe de representar os judeus em sua totalidade, embora os sionistas, notadamente sua ala mais agressiva, pretendam representar todos judeus. Aqueles que não se enquadram passam a ser os “non-jewish jews” ou pior, portadores de um hipotético ódio de si, uma auto-repulsa. Isto é falso. Como outros tantos, sou de origem judaica, mas não sou sionista e sou solidário da luta dos palestinos, como um alemão democrata seria solidário dos judeus massacrados e não de seus opressores nazistas.

Muitos israelenses não são sionistas, embora neste momento, por razões difíceis de indicar nesta missiva, predomine a tendência mais agressiva que, alegre, observa de longe o gueto de Gaza, esfaimado e agredido como aqueles da Europa oriental na Idade Media e sobretudo durante o domínio nazista.

Assimilar os sionistas a todos os judeus, aliás categoria difícil de definir, acentua o ódio. Note que as expressões públicas de ódio são bem mais numerosas entre a população israelense, hoje dominada pela extrema direita, que entre os palestinos.

Atenciosamente,

Bernardo Boris VARGAFTIG
Professor Titular Aposentado – ICB USP

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Publicado às 30 de julho de 2014 por em Comentários, Política e marcado , , , , .

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