BABEL À ESQUERDA

DA POLITICA À LITERATURA, CIÊNCIAS, ACONTECIMENTOS E ADENDOS.

Governo busca apoio de elite empresarial para conter crise. (Em suplemento literário: O que Marco Túlio Cícero, o mais célebre dos oradores romanos, pensava do assunto em 63 antes da era comum*.)

Transcrevo em itálicos e negrito, partes de uma nota de Natuza Nery da “Folha de São Paulo” de 7 de agosto de 2015, que merecem destaque. Comentários seguem os dois destaques.

  1. “Com os indicadores econômicos piorando e a instabilidade política reforçando o cenário de recessão, a presidente Dilma Rousseff irá recorrer aos líderes do PIB (Produto Interno Bruto) para tentar obter apoio e, assim, driblar a crise. Estão na lista alguns dos maiores grupos privados do país, tais como Rubens Ometto (Cosan), Luiz Carlos Trabuco (Bradesco), Jorge Gerdau (Gerdau) e Abílio Diniz (Grupo Pão de Açúcar). Todos são considerados relativamente próximos ao Executivo.”

Comentario: De cara, uma piada que a autora leva a sério: na 3a linha acima, o grupo de capitalistas é qualificado de “líderes do PIB”! Uma piada (ou sera que é uma mentira?), pois os interessados (provavelmente agradavelmente surpresos) sabem bem que os líderes do PIB são os produtores de mais-valia, os proletários e derivados. Os demais, mamam, pois a sociedade pode perfeitamente viver sem seus mentores capitalistas e estes não vivem 24 horas sem seus explorados. Dona Natuza Nery deveria ler Marx.

Falta na lista de lideres (sic) o pessoal das empreiteiras, talvez retidos alhures e do agro-negócio (já dentro do governo, junto com os bancos).

  1. Em avaliações internas, o governo concluiu que precisa não só recuperar interlocução com os movimentos sociais, mas também refazer as pontes com o capital.

O objetivo é, de um lado, mostrar apoio entre os chamados barões do PIB, e, do outro, obter ajuda da iniciativa privada para influenciar o Congresso contra a aprovação de projetos com forte impacto fiscal.”

Comentário: eis a cara do “reformismo sem reformas”: querem “interlocução” com todo mundo para enganar um dos interlocutores. Perguntem à Sra. Katia Abreu ou ao Sr. Levy quem seria o enganado; o enganador, já conhecemos. Bater papo (“interlocução”), é às vezes possível, mas acordo, é outra historia. A chamada luta de classes se opõe. Estas pontes imaginárias podem se cruzar, pois enquanto se conversa, os capitalistas têm seus próprios planos e contam – por enquanto – com o governo e seus acólitos para manterem os trabalhadores sob o controle CUT-petista. Isto permite ao governo, com o mínimo possível de constrangimento e de oposição popular organizada, prosseguir em sua missão número um: fazer os trabalhadores – produtores de mais valia, os verdadeiros “líderes do PIB” – pagarem pela crise através de gigantesca perda de direitos e de nível de vida.

Suplemento literário: O que Marco Túlio Cícero pensava do assunto no ano 63 antes da era comum.

Nascido um século antes dos inícios da era cristã (que os historiadores laicos preferem denominar “era comum”), Marco Túlio Cícero pronunciou um célebre discurso contra o conspirador Catilina. Briga de compadres, não tenho posição definida, prefiro a posição do escravo Spartacus que dez anos antes liderou durante mais de dois anos um exércitos de escravos em guerra contra seus donos. Massacrados pelas tropas romanas, mais de 6.000 escravos foram crucificados na via Appia.

Cícero pronunciou um célebre discurso que começa com “Até quando, enfim, Catilina abusarás de nossa paciência? Por quanto tempo ainda esse teu rancor nos enganará? Até que ponto a tua audácia se gabará?”…. “Não percebes que os teus planos estão patentes? Não vês que a tua conspiração já é tida como presa pelo conhecimento de todos estes?”. (tradução de Napoleão Mendes de Almeida, Gramática Latina, Editora Saraiva, 2000).

A história terminou mal para Catilina, expulso de Roma, mas pior ainda muito tempo depois, para Cícero. Expulso de Roma pelos partidários de Catilina, após 16 meses voltou triunfante. Perseguido em outras circunstâncias, foi em -43 assassinado, tendo cabeça e mãos amputadas e enviadas a Antonio, um seu anterior antagonista…

Porque relato tudo isso? Evidentemente, as circunstâncias são diferentes, eu não saberia sem forçar a barra identificar seus participantes com os de hoje. Cunha não é Catilina, Lula/Dilma não são Cícero – mesmo se Lula talvez pense se-lo em 2018. Se os personagens não se identificam com os de hoje, a história tem coisas em comum: briga de foice na classe dominante, expulsões, vinganças. Faltam belos discursos, clamados com franqueza: nenhum dos politicos burgueses de hoje seria capaz de dizer “Quosque tandem abuterte, Catilina, patientia nostra?” (“Até quando, enfim, Catilina abusarás de nossa paciência?).

* Postei em 2014 o texto completo, numa “singela homenagem” ao Reitor da USP, Prof. Dr. Marco Antonio Zago.

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Publicado em 8 de agosto de 2015 por em Geral.

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