BABEL À ESQUERDA

DA POLITICA À LITERATURA, CIÊNCIAS, ACONTECIMENTOS E ADENDOS.

Vereadores campineiros, Simone de Beauvoir e a religião.

Foi noticiado que vereadores de Campinas aprovaram moção contra Simone de Beauvoir, filósofa francesa que foi importante na esquerda feminista durante os anos 1970. Um seu pronunciamento foi objeto de pergunta na prova do ENEM 2015. Os argumentos dos ilustres censores são realmente curiosos, merecem ser notados para avaliarmos o nível intelectual dos representantes da população desta cidade e lamentar que sejam estes os tais representantes. Simone de Beauvoir, companheira de Jean-Paul Sartre, tem personalidade própria, é autora de muitos livros. Um deles, muito interessante, retrata a intelectualidade dita de esquerda no após guerra na França e se intitula “Os Mandarins”. Recomendo a leitura de sua obra aos vereadores que porventura não a tenham lido – que é improvável, como votariam contra a autora, sem conhecer sua obra? 

O primeiro dentre eles a intervir na reunião da Camara de Vereadores, tanto (não) estudou o problema que não consegue pronunciar o nome de Simone de Beauvoir, se atrapalha todo (no fim do primeiro minuto da primorosa apresentação). Evidentemente, ninguém nasce sabendo e não seria motivo de chacota, em circunstancias menos extravagantes, que alguém ignorasse as sutilezas da língua francesa. Mas aqui e agora, não dá! O ilustre representante, ao não conseguir pronunciar o nome da diabólica filósofa, mostra que não procurou se documentar em nada, nem sabe de quem está falando (verdade que seus colegas, como o sutil apresentador, também não utilizam a língua pátria com a perfeição que deveriam mostrar, ao ignorarem a necessidade do acordo de número (deixo aos leitores e especialmente ao ignorante da língua pátria, o cuidado de identificar o “lapso”).

Vem outro e fala das tradições cristãs que se oporiam à “ideologia” da Simone de Beauvoir, quando obviamente, visto o caráter laico do estado, esta referência é absurda. Chama a atenção também o discurso sobre a “intolerância” atribuída àqueles que defendem a liberdade de opinião e da laicidade do ensino, rotulados de “esquerda raivosa”. Esta pequena burguesia que substitui sua abismal ignorância por declarações religiosas tem o projeto – se é que este monte de bobagens é um projeto – dos setores mais infames da sociedade, herdeiros dos inquisidores da Igreja católica da idade media, dos caçadores de heréticos e de judeus das cruzadas, dos adeptos das ditaduras. Os anos de lulismo/PT prepararam isto, com sua constante conciliação com os setores mais atrasados da sociedade, suas negociações/negociatas com a direção dos fundamentalistas. A este posicionamento reacionário corresponde, no mundo inteiro, o avanço das ideias fascisantes. Em lugar de impulsionarem a cultura democrática, promoveram o que há de mais retrógrado e todos pagam/pagarão, se não resistirem. O pêndulo da história deverá corrigir esta aberração, mas não o fará sozinho,nada se fará sem organização.

Uma nota final: o fundamentalismo não é, por si só, uma ideologia e nem está, é claro, ligado a uma religião particular. É mais aparente neste continente, do norte (Estados Unidos) ao sul, como uma extravagância cristã, mas há/houve, cristãos de esquerda – limitados em sua compreensão do mundo, da luta de classes etc., mas totalmente respeitáveis, heróicos muitas vezes. Que não tenham prosperado, não prova nada senão que teriam dificuldade em seguir um movimento revolucionário – mas até prova do contrário não são os únicos que apresentam tal defeito. Portanto, o reacionarismo não está condicionado pela religião em si, que é mais um disfarce, uma projeção alienada e alienante, uma forma de apresentação, que com frequência provem dos dirigentes negocistas, estes sim claramente proponentes de um programa político extremamente reacionário. Assim, acredito que a atitude correta é discutir e lutar, denunciar a direção política, mas não os indivíduos populares que, desesperados de sua situação material, procuram no além o que não encontram no “aqui e agora”. Em outros termos, a luta ideológica é essencial, mas a sociedade não está dividida entre crentes e não crentes, mas em classes sociais. Vejam o interessante artigo de Henrique Canary acima, em http://www.pstu.org.br/node/8934 e no livro “O que é…”, por Henrique Canary, Editora Sundermann, 2012 – http://www.editorasundermann.com.br).

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Publicado em 31 de outubro de 2015 por em Geral.

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